sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Inspirados pelo gênio

Texto escrito por mim e por Fabiano Peternella Passos para a revista Ilúmina, por ocasião da morte do mestre.




A morte do escritor José Saramago deixou órfã uma legião de fãs que tomaram gosto pela literatura por meio de suas linhas, sem parágrafos nem pontuação. A Obra de Saramago é tão vasta e diversificada que consegue atingir pessoas de todas as idades e classes.

Com uma característica única, dá vida as personagens e aos fatos utilizando uma escrita coesa; para ele a comunicação com o leitor é mais importante que a linguagem escrita. Ele consegue aproximar a linguagem oral da linguagem escrita com uma persuasão impar. Suas frases e parágrafos são extensos, usando a pontuação de uma maneira não convencional. Os diálogos dos personagens misturam-se à narração.

Mais que um pensador, um visionário ou um mestre das letras, o desaparecimento do Nobel da Literatura, aos 87 anos, priva o mundo de uma fonte inesgotável de inspiração.

Mais que um pensador, um visionário ou um mestre das letras, o desaparecimento do Nobel da Literatura, aos 87 anos, priva o mundo de uma fonte inesgotável de inspiração.

Não vamos considerar aqui quem teve sua vida, sua forma de pensar ou olhar o mundo intimamente influenciado pelas palavras do escritor. A intenção é trazer referências de artistas que beberam diretamente na fonte e basearam suas obras nos seus livros e contos.

O filme Blindness, de Fernando Meireles, pode ser considerado o ponto alto das inspirações. Coube ao diretor brasileiro o privilégio de dirigir o longa, baseado no livro “Ensaio Sobre a Cegueira”, vencendo a resistência do escritor, que havia recusado propostas de adaptação mais de 40 vezes. Saramago sempre se mostrou avesso a idéia de ver sua obra na telas, mas acabou cedendo a insistência de Meireles. O livro também foi adaptado e montado no Brasil pela companhia teatral Andantes.

Em 2002, a obra “A jangada de pedra” virou filme pelas mãos do diretor George Sluizer, mostrando o que aconteceria se um terremoto separasse a Península Ibérica do resto da Europa.

No campo das animações, o seu único livro infantil “A maior flor do mundo”, também ganhou uma singela homenagem na forma do curta metragem de Juan Pablo Etcheverry narrado pelo próprio Saramago.

Em 2010 outro longa metragem inspirado numa obra do autor foi lançado oficialmente em Portugal. “Embargo”, baseado no conto homônimo, traz a história de um vendedor de cachorro-quente que inventa uma máquina de escanear pés capaz de revolucionar o mercado de calçados, mas de repente, se vê confinado no próprio carro. Trata-se de mais uma das metáforas criadas por Saramago que fazem refletir sobre a condição humana em meio aos avanços tecnológicos.

Por último, mas não com menor importância, o documentário “José & Pilar”, do diretor português Miguel Gonçalves Mendes, tem estréia prevista para novembro no Brasil e mostra a paixão dele por sua mulher, a jornalista Pilar Del Rio, 28 anos mais jovem a quem uma vez Saramago dedicou a seguinte declaração: “Se eu tivesse morrido aos 63 anos antes de lhe ter conhecido, morreria muito mais velho do que seria quando chegar a minha hora”

Obra multifacetada

Entre seus livros destaca-se Memorial do Convento, romance de leitura obrigatória em muitos vestibulares, mistura ficção e realidade. Narrado durante o reinado de Dom João V, que manda construir um palácio chamado de convento para cumprir uma promessa que garantiu sua sucessão ao trono.

Entre os operários que trabalham na obra destaca-se Baltazar que é apaixonado por Blimunda que, junto com o padre Bartolomeu, constroem um aparelho voador para ir em direção ao sol. Algo dá errado e Baltazar fica preso ao aparelho e vai ao céu, quando cai é capturado pela Inquisição. Seguindo por uma tênue linha entre ficção erealidade, o autor critica a exploração dos pobres pelos ricos.

Em Ensaio Sobre a Cegueira, Saramago demonstra da maneira mais crua possível o submundo do ser humano. Até que ponto a crueza das pessoas podem chegar para saciar seus desejos mais primais.

No meio da rua, em um dia normal, começa uma epidemia de “cegueira branca” jamais conhecida ou documentada. As vítimas são colocadas em um sanatório em quarentena, mas uma mulher entre eles ainda enxerga e vai guiá-los no labirinto da mais baixa condição humana. Todo tipo de sentimento aflora-se: poder, ganância, vergonha...

Quando conseguem fugir do cativeiro deparam-se com a cidade totalmente abandonada e imunda. As pessoas seguem seus instintos animais, são nômades a procura de abrigo e comida. Da mesma forma como ficaram cegos, voltam a enxergar. Mas o submundo da alma humana já está lá, para sempre.

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