quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Despedida do trema


"Uma tremenda aula de criatividade e bom humor, por sinal, com acentuada inteligência".

Estou indo embora. Não há mais lugar para mim. Eu sou o trema. Você pode nunca ter reparado em mim, mas eu estava sempre ali, na Anhangüera, nos aqüiféros, nas lingüiças e seus trocadilhos por mais de quatrocentos e cinqüentas anos.

Mas os tempos mudaram. Inventaram uma tal de reforma ortográfica e eu simplesmente tô fora. Fui expulso pra sempre do dicionário. Seus ingratos! Isso é uma delinqüência de lingüistas grandiloqüentes!...

O resto dos pontos e o alfabeto não me deram o menor apoio... A letra U se disse aliviada porque vou finalmente sair de cima dela. Os dois pontos disse que sou um preguiçoso que trabalha deitado enquanto ele fica em pé.

Até o cedilha foi a favor da minha expulsão, aquele C cagão que fica se passando por S e nunca tem coragem de iniciar uma palavra. E também tem aquele obeso do O e o anoréxico do I. Desesperado, tentei chamar o ponto final pra trabalharmos juntos, fazendo um bico de reticências, mas ele negou, sempre encerrando logo todas as discussões. Será que se deixar um topete moicano posso me passar por aspas?...

A verdade é que estou fora de moda. Quem está na moda são os estrangeiros, é o K, o W "Kkk" pra cá, "www" pra lá.

Até o jogo da velha, que ninguém nunca ligou, virou celebridade nesse tal de Twitter, que aliás, deveria se chamar TÜITER. Chega de argüição, mas estejam certos, seus moderninhos: haverá conseqüências! Chega de piadinhas dizendo que estou "tremendo" de medo. Tudo bem, vou-me embora da língua portuguesa.

Foi bom enquanto durou. Vou para o alemão, lá eles adoram os tremas. E um dia vocês sentirão saudades. E não vão agüentar!...

Nos vemos nos livros antigos. Saio da língua para entrar na história.

Adeus, Trema.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Como vencer a pobreza e a desigualdade

REDAÇÃO DE ESTUDANTE CARIOCA VENCE CONCURSO DA UNESCO COM 50.000 PARTICIPANTES.

Tema: 'Como vencer a pobreza e a desigualdade'
Por: Clarice Zeitel Vianna SilvaUFRJ - Universidade Federal do Rio de Janeiro

"PÁTRIA MADRASTA VIL"

Onde já se viu tanto excesso de falta ??? Abundância de inexistência ... Exagero de escassez ... Contraditórios ??? Então aí está !!! O novo nome do nosso país! Não pode haver sinônimo melhor para BRASIL. Porque o Brasil nada mais é do que o excesso de falta de caráter, a abundância de inexistência de solidariedade, o exagero de escassez de responsabilidade.

O Brasil nada mais é do que uma combinação mal engendrada - e friamente sistematizada - de contradições. Há quem diga que 'dos filhos deste solo és mãe gentil.', mas eu digo que não é gentil e, muito menos, mãe. Pela definição que eu conheço de MÃE, o Brasil está mais para madrasta vil. A minha mãe não 'tapa o sol com a peneira'. Não me daria, por exemplo, um lugar na universidade sem ter-me dado uma bela formação básica.

E mesmo há 200 anos atrás não me aboliria da escravidão se soubesse que me restaria a liberdade apenas para morrer de fome. Porque a minha mãe não iria querer me enganar, iludir. Ela me daria um verdadeiro Pacote que fosse efetivo na resolução do problema, e que contivesse educação + liberdade + igualdade.

Ela sabe que de nada me adianta ter educação pela metade, ou tê-la aprisionada pela falta de oportunidade, pela falta de escolha, acorrentada pela minha voz-nada-ativa. A minha mãe sabe que eu só vou crescer se a minha educação gerar liberdade e esta, por fim, igualdade. Uma segue a outra... Sem nenhuma contradição!

É disso que o Brasil precisa: mudanças estruturais, revolucionárias, que quebrem esse sistema-esquema social montado; mudanças que não sejam hipócritas, mudanças que transformem!A mudança que nada muda é só mais uma contradição.

Os governantes (às vezes) dão uns peixinhos, mas não ensinam a pescar. E a educação libertadora entra aí. O povo está tão paralisado pela ignorância que não sabe a que tem direito. Não aprendeu o que é ser cidadão. Porém, ainda nos falta um fator fundamental para o alcance da igualdade: nossa participação efetiva; as mudanças dentro do corpo burocrático do Estado não modificam a estrutura.

As classes média e alta - tão confortavelmente situadas na pirâmide social - terão que fazer mais do que reclamar (o que só serve mesmo para aliviar nossa culpa) ... Mas estão elas preparadas para isso ??? Eu acredito profundamente que só uma revolução estrutural, feita de dentro pra fora e que não exclua nada nem ninguém de seus efeitos, possa acabar com a pobreza e desigualdade no Brasil.

Afinal, de que serve um governo que não administra ??? De que serve uma mãe que não afaga ??? E, finalmente, de que serve um Homem que não se posiciona ??? Talvez o sentido de nossa própria existência esteja ligado, justamente, a um posicionamento perante o mundo como um todo. Sem egoísmo. Cada um por todos.

Algumas perguntas, quando auto-indagadas, se tornam elucidativas. Pergunte-se: quero ser pobre no Brasil ??? Filho de uma mãe gentil ou de uma madrasta vil? Ser tratado como cidadão ou excluído ??? Como gente... Ou como bicho ???


Premiada pela UNESCO, Clarice Zeitel, de 26 anos, estudante da faculdade de direito da UFRJ, concorreu com outros 50 mil estudantes universitários. Ela acaba de voltar de Paris, onde recebeu um prêmio da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) por uma redação sobre 'Como vencer a pobreza e a desigualdade'
A redação de Clarice intitulada `Pátria Madrasta Vil´ foi incluída num livro, com outros cem textos selecionados no concurso. A publicação está disponível no site da Biblioteca Virtual da UNESCO.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

AÇÚCAR - Conto de Ana Santos



Meu vô Laco era branco e leve, sentado à porta. Respirava baixo. Tinha nos olhos resto de espanto: era cego. E no cegar sequer sabia a gente, na cadeira anoitecia, quieto, quieto, entre galinhas e sapos. Havia escuro, mas no rosto do vô as duas velas, até minha mãe, sua filha, soprá-las com voz e braço, ternos.

Era plácido; inimigo do vento. Às vezes quis falar-lhe, dizer verso, dizer: vô Laco, o senhor lembra que são bonitas as galinhas? Dizer: vozinho, quer que eu te conte essa figura de revista? Não disse. Meu vô Laco era perecível. A gente ficava sem jeito de amá-lo.

Cheirava morno. Vestia casaco, seu único, de linho marrom. Casaco de baús. Nos bolsos, guardava as mãos, muitíssimo. Muitíssimo ruminou segredo na boca vazia de dentes. Mastigava - os lábios cerrados, beija-flor de asa - algum caramelo eterno.

Gostava, sim, de caramelos. Mas o doutor lhe proibira açúcar: a filha escondera em terríveis potes as doçuras todas da casa. Não raro a gente o via na cozinha a tatear, cheirar, derrubar xícaras. Sumiam nacos de rapadura e chocolate, fatias de bolo - que coisa feia, o senhor não tem vergonha? E o vô sorria, desentendido.

Uma vez me chamou: Julinho. Então ele me sabia? Tirou do bolso chicle de hortelã. O sol, monótono, se punha. Houve barulho: de grilo, rádio, cão. Fiquei assim, com ele, ao pé da porta - silencioso, diminuto, a estourar bolas.

Um velho sentado em cadeira preenche os quintais do mundo. Não há não vê-lo; não pensá-lo. Um velho vive porque a gente o vê, a gente pensa: quando ele for, o que será? Pois se ele tem a idade do tempo. A gente ri do que ele fala, diz: está caduco. Um velho atravessa o dia muito só, lembrando, navegante de horas. Leva a cadeira ao quintal, de manhã; à noite a recolhe. Entrementes, o nada supremo, as cozinhas.

Não disse: quer um gole do meu guaraná? Que eu te faça chapéu de jornal? Ele era pouso pros aviões da gente - gigante doce, inerte.

Decerto, entrementes, mastigando, quis dilúvio, quis incêndio, morreu, morreu - sequíssimo e intacto. E já não era vô Laco; era o horror das cadeiras sem velho.

Foi velado, sobre a mesa. Vieram parentes, com choro. Lá fora, o burburinho das aves. A filha penteara-lhe o cabelo, pusera-lhe sapatos, um casaco outro, novo. Eu sério, homenzinho, as pestanas inquietas. Amei-o com atraso.

O que é de um morto esconde-se em armário, atrás de porta. É um palpitar no escuro. A gente o liberta, enfim - e está mofado.

Do vô, era o casaco. Pendia (tão seu único, tão marrom) de algum cabide firme. E vi - que ditosas, achadoras de tesouro, invadiam-lhe os bolsos mil abelhas e formigas.

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Conto da escritora Ana Santos, parte do livro O Que Faltava ao Peixe.
Ilustração de Ana Teixeira.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Kung Fu Panda: The Kaboom of Doom


Novo Pôster de "Kung Fu Panda: The Kaboom of Doom", a continuação, que chega aos cinemas brasileiros no dia 10 de Junho de 2011.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

O Caminho das Oito Recomendações de Buda


Primeiro post do ano!


"Evitar o Mal
Desenvolver a Integridade
Purificar a Mente
Eis a Lição do Buda"

Sidarta Gautama, o Buda, ofereceu à humanidade o Caminho das Oito Recomendações para pôr fim à mecânica operação do carma:

Primeira, Visão Certa

Compreender a origem do sofrimento e como ele pode ter um fim.

Segunda, Resolução Certa

Decidir conscientemente evitar a auto-indulgência.

Terceira, Falar Certo

Abster-se de conversa-fiada e boatos.

Quarta, Ação Certa

Evitar qualquer forma de assassinato, manufatura de armas, guerra e roubo.

Quinta, Vida Certa

Evitar fazer dinheiro por meio de atividades nocivas.

Sexta, Esforço Certo

Lutar para manter o pensamento íntegro e evitar a desintegração do espírito.

Sétima, Mentalidade Certa

Tentar adquirir consciência dos estados anteriores.

Oitava, Concentração Certa

Tentar conquistar a serenidade interna, que possibilita a aquisição do verdadeiro discernimento.